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Belo TextoResponder sobre Belo Texto
Administrador AB
10/3/2007
Esse texto é tocante, foi escrito por uma professora de roteiro da Universidade Estácio de Sá e recebi de uma lista de que faço parte. Divido com vocês essa delicadeza em forma de palavras.
 
MEUS HERÓIS

Por Gisele Barreto Sampaio

Hoje, eu vi, da minha varanda, uma cena que mexeu comigo: era um homem puxando uma carroça que, por sua vez, puxava um cavalo. A carroça estava lotada de quinquilharias que ele recolhia nos lixos dos condomínios, desde poltronas a louças rachadas, roupas velhas a cascos de garrafas, enfim, tudo o que era lixo para alguns era mercadoria, era um bem utilizável e/ou vendável para ele. Mas o que mexeu comigo foi a inversão: era ele quem puxava a carroça e o cavalo.
Quando vi que ele estava entrando no meu condomínio, não agüentei... Peguei uns trecos aqui de casa e fui levar para ele.
Queria uma desculpa para falar com aquele homem. Só não sabia o que eu queria dizer, só sabia que precisava. Juntei coragem. Cumprimentei- o. Perguntei para ele se queria aquelas panelas velhas. Ele agradeceu com um sorriso. Era um sorriso doente. De poucos dentes. Aproveitei a oportunidade e engatei uma conversa despretensiosa, perguntando se ele revendia aquelas coisas, se quando eu precisasse de um carreto ou de me desfazer de algo podia procurar por ele, onde, como... Até que, não agüentando mais, eu perguntei realmente o que queria saber, o que tanto me incomodava:
- Por que o senhor está puxando a carroça e não o seu cavalo?
E ele me respondeu com a singeleza de um anjo - eu passei a crer que os anjos devam ser pessoas assim, como esse homem.
- É porque ele está cansado. Andou até o cavalo e ainda fez um carinho nele, sorrindo. Tão simples. Tão puro. Tão honesto. Não consegui continuar. Eu me despedi dele com um aperto de mão. Ele ficou um misto de surpreso, assustado, sei lá, pois talvez há algum tempo ninguém estendesse a mão para ele. Subi correndo para ele não ver meus olhos cheios de lágrimas. E eu chorei. Chorei como criança. Depois, fiquei pensando como a vida, as respostas, as atitudes podem ser simples, podem ser honestas, podem ser descomplicadas, se a gente se livrar dos ranços do "não pode", "isso não é certo", "a ordem das coisas não está correta", ou, o pior de todos: "eu quero assim!"...
Esse cara, esse homem sem nome, virou um dos meus heróis. Há pouco tempo, ministrei aulas ("ministrar" é esquisito, né?) nos Cursos de Férias da Estácio. Meu curso era Roteiro para Teatro, Cinema, Documentário e TV. Preparei minhas aulas com todo o carinho, pois amo dar aulas, conhecer gente nova, trocar e aprender junto. Fiz até uma homenagem ao Maurício de Souza, o pai da Mônica, do Cebolinha, da Magali... Ele tem um filme com seus personagens chamado Cine Gibi. Para homenagear o pai do Cascão, eu apelidei meu curso e dei o título da apostila que elaborei de Cine Gigi.
E lá fui eu começar a "ministrar" as aulas.
Levei um baita susto!
Eu tinha alunos de 14 a 70 anos!
Todas as idades, todas as décadas, até as do século passado - e estou aqui contando comigo também - estavam ali! Imagina o quanto de histórias e experiências aquele povo lindo tinha para me contar e ensinar... Olha a inversão aí de novo. O pessoal da antiga como eu relembrando os clássicos. A turma de 20-30 anos falando dos blockbusters que marcaram suas vidas. E a garotada teen me falando de fazer filme com a câmera do celular. Fantástico! E as aulas foram maravilhosas. Mas eu percebia algo diferente em dois alunos. Não sabia explicar o que era. Os dois tinham sempre a expressão muito cansada.
Eu percebia, apesar de os olhinhos dos dois quase não piscarem de tanta atenção que prestavam nas cenas de filmes, peças, documentários que eu exibia para ilustrar a matéria, que havia um tremendo esforço ali.
Em dias diferentes, na hora do intervalo, sozinha, para não constrangê-los, perguntei a cada um se havia algum problema com as aulas, com o meu método, se havia algo que eu pudesse fazer para deixá-los mais à vontade...
As respostas, mais uma vez, me fizeram descobrir novos heróis. Um dos meninos trabalhava em loja de material de construção. Seu trabalho era carregar e descarregar - nas costas - sacos de cimento dos caminhões o dia todo. O outro era vigilante e ficava em pé, sol e chuva, durante 12 horas seguidas, no estacionamento de um shopping Gente, carregar saco de cimento pra cima e pra baixo e ficar doze horas em pé sob um sol de 50 graus ou uma chuva nervosa e ainda ter disposição para assistir a uma aula sobre cinema e afins é coisa pra herói!
E eu falei isso para eles dois. Falei para eles terem orgulho deles mesmos, pois quem trabalha pesado como eles e depois ainda vem para uma sala de aula sonhar, porque estudar alguma forma de arte é sonhar também, sim, eles eram heróis da mais alta estirpe. Heróis que conseguem mudar o mundo com uma imagem, um filme, uma peça, um documentário.
Que sorte que eu dei com meus alunos. Eu é que tinha de pagar para eles. É gente assim que faz diferença no mundo e na vida da gente.
Prestem atenção às pessoas. Há uma história de vida em cada esquina.
Agora, tenho de confessar pra vocês que estou com um baita problema.
Meu marido acabou de entrar na cozinha para fazer a janta aqui em casa é o homem que é bom de forno e fogão. Ele quer saber onde estão as panelas aqui de casa! Está gritando lá da cozinha que todas as pobrezinhas, as panelinhas favoritas dele sumiram!

Até breve, gente, pois tenho de correr até um shopping pra comprar panelas novas, sob pena de estourar a terceira guerra mundial aqui em casa - e sem direito a herói para me salvar!

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